Sonetos

VIA LÁCTEA

"Ora (direis) ouvir estrelas! 
 
            Certo

            Perdeste o senso! "
 
            Eu vos direi, no entanto,

            Que, para ouvi-las, muita vez desperto

           
E abro as janelas, pálido de espanto...
 
            E conversamos toda a noite enquanto

            A via Láctea, como um pálio aberto,

            Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto

            Inda as procuro pelo céu deserto.
 
            Direis agora: "Tresloucado amigo!

            Que conversas com elas? Que sentido

            tem o que dizem, quando estão contigo?"
 
            E eu vos direi: "Amai para entendê-las!

            Pois só quem ama pode ter ouvido

            Capaz de ouvir e entender estrelas."
 
Olavo Bilac

segunda 18 janeiro 2010 15:55 , em Sonetos


O anjo de pernas tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!


Vinicius de Moraes

segunda 18 janeiro 2010 15:52 , em Sonetos


Ingratos

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.


Dom Pedro II

segunda 18 janeiro 2010 15:39 , em Sonetos


MENINA

És tão menina, mesmo assim eu te amo;
Zelo-te desde os teus anos de infância;
Cresceste e alimentei minha doce ânsia
De amar-te no jardim que vos aclamo;

Sonho contigo, lágrimas derramo…
Com teu caminhar na pura elegância…
Com teu perfume de doce fragrância…
Com teu nome que nos sonhos meus chamo;

Adormeço nas noites majestosas;
Meu jardim é um mar de lindas rosas
Que cobrirão teu corpo virginal;

Menina! Meu amor por ti é tanto;
Deixai-me te cobrir com branco manto
Menina virgem, meu puro cristal;


Samuel Balbinot

segunda 18 janeiro 2010 15:37 , em Sonetos



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